sexta-feira, 21 de março de 2014

Produto

Olhando pela janela do carro ele sabia que iria me deixar. Eu fiquei ali falando, implorando, argumentando, como se estivesse tentando vender algum produto caro para alguém, apontando suas qualidades, explicando as vantagens de adquirir um modelo como aquele, tão sólido, tão bem-feito, tão sensível e fiel às vontades do usuário. Mas ele não estava interessado, e remoía o cansaço e a culpa, mastigava-os em uma careta, como um chiclete que já havia perdido o gosto fazia tempo e ele mal via a hora de poder cuspir na primeira sarjeta que aparecesse pela frente.

Olhando pela janela do carro, para a rua fria e as gotas de chuva, parecia que ele queria fugir dali, pular pela janela, sair correndo, me deixar dentro daquele carro até que alguém acionasse o seguro contra roubo, enquanto ele corria, corria como um ladrão. Me deixa ir, ele dizia. Me deixa ir embora daqui. Salta desse carro, salta da minha vida, desaparece dentro da sua casa, faz com que eu nunca tenha existido na sua vida.

Olhando pela janela da sala, eu vi ele engatando a primeira e derrapando na rua molhada, como um foragido. Não acenou adeus, não pediu desculpas, apenas acendeu um cigarro dentro do carro e saiu voando.

Olhando pela vitrine, todos podem me ver, de novo. Estou à venda, por um preço muito baixo - um modelo usado, velho, desgastado. Quem sabe sirva para alguma coisa.

terça-feira, 18 de março de 2014

Pessoal particular

"Digerimos mais publicidade em um ano, do que nossos avós a vida inteira".
"Comprar tilhamos" ao máximo.
Cortamos o cabelo, reinventamos nosso gosto musical, criamos hábitos e hobbies fabricados pela massa.
Nunca foi tão fácil encontrar os conhecidos, vamos aos mesmos lugares.
Reclamamos da rotina, mas nos alegramos se acabar em final de semana.
Saímos de casa, procuramos algo mais. Voltamos pra casa sem nada, mas fingimos que achamos.
Se contestar muito é in, fazemos. Se citar autores faz parecer inteligente, citamos. Se listras são in, vestimos. Se a natureza é in, verdejamos.
Não contar pra ninguém, out.
Esses dias ouvi uma coisa "Cuidado pra não falar tudo o que pensa e ficar sem conteúdo".
Acordei de um transe e pensei: é questão de uns cinco anos pra cá, respira. Dá tempo.
Hora de desapegar do holofote.
Quanto vale guardar um restaurante preferido em sigilo, apenas pra levar quem mereça em certo dia?
Estão pagando pra espalhar meu sorriso preferido que você fotografou naquele flash a dois?
Não to pechinchando o trecho grifado das folhas gastas de Ferreira Gullar, que me chocam sempre.
Aquela melodia que eu toco, que me toca e que não chegou às paradas, não troco mais.
Ainda to chorando sozinha com a cena daquele filme sem recursos e sem demanda.
Do you like? Não quero.
To zelando aqui desse melhor particular. Não vale tanto se estiver na palma da mão. Ouro tá enterrado.
E se continuar comigo e eu gostar de tudo sozinha, o retorno sempre será de 100%.