sexta-feira, 21 de março de 2014

Produto

Olhando pela janela do carro ele sabia que iria me deixar. Eu fiquei ali falando, implorando, argumentando, como se estivesse tentando vender algum produto caro para alguém, apontando suas qualidades, explicando as vantagens de adquirir um modelo como aquele, tão sólido, tão bem-feito, tão sensível e fiel às vontades do usuário. Mas ele não estava interessado, e remoía o cansaço e a culpa, mastigava-os em uma careta, como um chiclete que já havia perdido o gosto fazia tempo e ele mal via a hora de poder cuspir na primeira sarjeta que aparecesse pela frente.

Olhando pela janela do carro, para a rua fria e as gotas de chuva, parecia que ele queria fugir dali, pular pela janela, sair correndo, me deixar dentro daquele carro até que alguém acionasse o seguro contra roubo, enquanto ele corria, corria como um ladrão. Me deixa ir, ele dizia. Me deixa ir embora daqui. Salta desse carro, salta da minha vida, desaparece dentro da sua casa, faz com que eu nunca tenha existido na sua vida.

Olhando pela janela da sala, eu vi ele engatando a primeira e derrapando na rua molhada, como um foragido. Não acenou adeus, não pediu desculpas, apenas acendeu um cigarro dentro do carro e saiu voando.

Olhando pela vitrine, todos podem me ver, de novo. Estou à venda, por um preço muito baixo - um modelo usado, velho, desgastado. Quem sabe sirva para alguma coisa.

Um comentário:

Gyzelle Góes disse...

Profundamente bonito